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A promessa ao amanhecer

Contos de Romântico · aprox. 6 min de leitura · Maiores de 18

O aroma de café fresco e torrada com manteiga penetra pela porta fechada do quarto, mas não é o cheiro que me acorda. É o tilintar leve de porcelana, o farfalhar de tecido, uma risada abafada – sons estranhos ao nosso apartamento, que há meses só era preenchido por silêncio e respiração monótona.

Pisco na penumbra. A luz da aurora desenha listras pálidas e trêmulas no teto, como dedos tentando agarrar algo. Ao meu lado, o lugar vazio, ainda quente, onde Lena costuma estar, uma depressão no lençol que anseia por sua forma. Tateio em sua direção, a marca no travesseiro, alguns fios de cabelo perdidos que se enroscam em meus dedos. Então ouço sua voz, baixa, cantarolando, uma canção que não conheço – uma melodia que se insinua em meu ouvido e desperta algo em mim.

Meu coração dá um salto, uma batida selvagem e impetuosa contra minhas costelas. Nos perdemos tanto na rotina ultimamente. O trabalho, as contas, o cansaço que nos levava para a cama mais cedo a cada noite, costas com costas, sem toque, como se fôssemos dois estranhos dividindo uma cama. E agora isso: um café da manhã que nunca acontece, porque aos domingos sempre saímos da cama perto do meio-dia, letárgicos e entorpecidos.

Levanto, as tábuas do assoalho rangem sob meus pés descalços, um gemido familiar de madeira. Abro a porta uma fresta. Lá está ela sentada na borda da cama, uma bandeja ao lado, carregada com uma cesta de croissants brilhando dourados, um prato com frutas vermelhas e suculentas, um pequeno vaso com uma única rosa – onde ela conseguiu isso tão cedo? – e duas xícaras de café cujo vapor se enrola no ar da manhã. Ela vestiu algo por cima, minha velha camisa de linho macia, aberta sobre os ombros nus, o tecido caindo em dobras suaves e revelando mais do que esconde. Seu cabelo cai solto no rosto, uma juba escura e selvagem, e ela morde o lábio inferior enquanto dobra um guardanapo, seus dedos delicados e concentrados.

Ela olha para cima. Seus olhos, aquele azul profundo que amo há anos, me acertam como uma flecha. “Você está acordado”, sussurra, como se tivesse feito algo proibido, como se eu fosse seu cúmplice pego em flagrante. “Queria te surpreender.”

“Conseguiu”, digo, e minha voz sai mais rouca do que pretendia, um arranhão áspero que trai o desejo. Apoio-me no batente da porta e a observo sentada, semi-vestida, envergonhada e linda. “Qual é a ocasião?”

Ela dá de ombros, a camisa escorrega um pouco mais, revelando o começo de seus seios, uma curva suave que me hipnotiza. “Nenhuma ocasião. Só estava com saudade de você. De nós.”

Essa frase me acerta em cheio no peito, um golpe que me faz cambalear. Saudade. Quando foi a última vez que senti isso? Esse aperto, esse desejo que não é só físico, mas mais profundo, no coração, na alma, uma dor doce e pesada. Aproximo-me e sento na cama em frente a ela. A bandeja está entre nós como uma barreira, mas sua mão encontra a minha, quente e viva.

“Eu também”, consigo dizer. “Só esqueci como demonstrar.”

Ela sorri, um sorriso tímido, quase de menina, que me tira o fôlego e faz meu sangue ferver. “Então deixa eu te mostrar.” Pega um croissant, quebra um pedaço e leva aos meus lábios, uma oferenda, um sacrifício. Abro a boca, deixo os flocos de massa amanteigada derreterem na língua, enquanto seus dedos acariciam suavemente meu lábio inferior, um toque que me eletriza. O sabor da manteiga e da massa doce se mistura com o sal de sua pele, um prazer que me enfraquece.

Beijo suas pontas dos dedos, um por um, chupo as migalhas, lambo a doçura de sua pele. Ela ri baixinho, um som que aquece meu sangue, que me excita profundamente na barriga. Então ela se inclina e dá uma mordida ela mesma, mas seus olhos não me soltam enquanto mastiga, devagar, com prazer, seus lábios brilhando de manteiga.

“Você é linda”, digo, e não é um elogio, mas uma constatação que simplesmente escapa dos meus lábios, uma confissão que não consigo conter.

Ela cora, um rubor leve que sobe do pescoço, sobre a clavícula, até as bochechas. “Para de me olhar assim”, diz, mas seu olhar é suave, convidativo, suas pupilas dilatadas.

“Como estou te olhando?”

“Como se estivesse me vendo pela primeira vez. Como se quisesse me devorar.”

“Talvez eu queira.”

O sorriso se alarga, e ela coloca a bandeja de lado, se aproxima, seus joelhos tocando os meus. O café perfuma entre nós, mas só sinto o cheiro dela: seu sono, seu xampu, algo de lilás e o aroma quente e feminino de sua pele que me envolve. Ela coloca a mão na minha bochecha, as pontas dos dedos frias, mas o toque queima como fogo.

“Ainda tenho uma surpresa”, sussurra, e sua voz de repente fica mais grave, mais rouca, uma promessa que percorre minha espinha. Ela enfia a mão no bolso da camisa e tira um pequeno pacote envolto em seda. “Para você.”

Pego, confuso, meus dedos tremendo. “Lena, isso é…”

“Abre”, ela me interrompe, e sua mão repousa quente na minha coxa, apertando de leve.

Desdobro a seda, lisa e fresca sob meus dedos. Revela-se uma tira estreita de couro, macia e flexível, com uma pequena fivela de prata que brilha na luz da manhã. Uma plaquinha de identificação? Não. Reconheço: uma pulseira, mas não daquelas que se coloca simplesmente. Tem que apertar, prender, e a fivela fica até ser solta. É um símbolo, uma promessa. Um sinal de entrega.

“Quero que você use”, diz ela baixinho, e sua voz treme quase imperceptivelmente. “Para que você sempre pense em mim. No que quero te dar. No que podemos dar um ao outro.” Ela baixa o olhar, depois o ergue novamente, e em seus olhos há um fogo que não via há meses. “Quero pertencer a você. De verdade. Não só na cama. Em todo lugar.”

Minha respiração para. A tira de couro pesa na minha mão, embora quase não tenha peso. “Lena…”

“Você confia em mim?”, pergunta, e sua mão desliza mais para cima, sobre minha coxa, até minha virilha. Ela aperta, e sinto meu pau endurecer sob seu toque, pressionando contra o tecido da minha cueca. “Confia o suficiente para se entregar a mim?”

Engulo seco. “Sim.”

Ela sorri, um sorriso triunfante, quase selvagem. “Então deixa eu colocar.”

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